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6.11.16

A minha última noite em Bruxelas


Para a minha última noite em Bruxelas, decidimos ir jantar fora. Aconselhadas por um amigo da Joana, fomos os quatro experimentar os Les Moules, um prato de mexilhões muito conhecido na Bélgica. O restaurante chamava-se chez Leon e situava-se numa das ruas que dá acesso ao Delirium, o bar do último post (aqui). Eu e a Joana experimentámos os mexilhões simples que são servidos numa panela e eles pediram com molho de queijo e molho de tomate. Eu sou fã de marisco e praticamente quase tudo o que venha do mar - excepto polvos - e posso-vos dizer que o sítio correspondeu plenamente às nossas expectativas. Os mexilhões estavam com óptimo aspecto, sem nenhum grão de areia e viam-se que eram frescos. O atendimento também foi bastante simpático tendo em conta as inúmeras perguntas que fizemos sobre o menu. Além do mais, era impossível esquecer-me de onde me situava. A decoração das paredes e janelas expirava Bruxelas. 

Terminei a noite a admirar a Grand Place com a Joana. De dia, já era deslumbrante mas à noite ganhava um brilho especial, tornava-se imponente. Sentámos-nos novamente no chão e falámos sobre a experiência dela em erasmus e como aquilo a estava a mudar. 

- Tens que fazer erasmus. Não podes deixar de fazer! - dizia-me ela.

Ela não me mencionava as festas, a bebida, as férias sobre responsabilidades académicas como razão. Ela queria que eu fizesse para descobrir parte de mim que só se descobre estando fora. A conversa foi longa e daquelas que nós gostamos. Fez-me ver coisas como nunca antes as tinha ponderado. Abriu-me janelas sem fechar portas. Um momento bem especial que guardo com estas fotografias. Também foi o meu último lá. Na manhã seguinte, embarquei de volta a Portugal. A viagem? Fi-la toda a dormir. Já não me assustava andar mais de avião ou perder-me onde quer que fosse. Sentia-me tranquila comigo mesma e com muitas saudades de casa. Também sabia que ia regressar à Grand Place. Não era uma despedida. Era um pin que queria voltar a repetir muitas vezes no meu planisfério. 

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Este é o último post que faço sobre a minha viagem. Espero que tenham gostado e um dia ainda ainda vos seja útil. Para facilitar, fiz um novo separador dentro das Categorias para terem um acesso mais rápido a todos os posts sobre Bruxelas. Sei que me ausentei e que de alguma forma vos desiludi. Há muitos meses que tinha estas fotos guardadas e sabia que era com elas que queria voltar. Mas às vezes é preciso sair um pouco da bolha. Criei o blog e com ele nasceu uma responsabilidade, é verdade. Mas quero que percebam que além de fazer este trabalho com imenso gosto, carinho e dedicação, nunca vos escrevi nada contrariada ou com menos motivação. Por essa mesma razão, não quis forçar nada e simplesmente 'adormeci' na blogosfera. No entanto - e é maioritariamente por isso que vos escrevo este parágrafo - quero agradecer-vos muito por todas as mensagens que me enviaram a perguntar se estava tudo bem ou a dizerem-me para não desistir do blog. Principalmente aquelas que diziam ter saudades. É muito bom perceber que o que escrevo aqui é reconhecido por vocês a esse ponto. Quero que saibam que desistir do blog nunca vai ser uma hipótese em cima da mesa. Eu adoro isto :) 

3.11.16

Delirium e o seu menu sem fim


Além das waffles, das frites e do chocolate, a Bélgica é também conhecida por possuir algumas das melhores cervejas do mundo. Há inúmeros locais onde as podem experimentar mas o bar mais famoso de Bruxelas é (sem dúvida!) o Delirium Café. Apesar da sua localização discreta numa travessa perto da Grand Place, é denunciado pela multidão junto da sua porta exterior. E acreditem que isso é só uma amostra da quantidade de pessoas que irão encontrar. Dividido em três andares, o Delirium possui o maior menu de bebidas - mais de três mil actualmente e maioritariamente cervejas - que possam imaginar. Daí também ter sido premiado e constar no Guiness Book de 2004. Acho que não é preciso avisar-vos para que não peçam o menu porque nem todas as sebentas juntas que leram na faculdade conseguiam dar conta do recado. 

Existe sim, uma verdadeira bíblia a circular pela sala e que descreve cada cerveja. Da minha parte, sugiro que saltem este passo e - inocentemente, claro - peçam uma sugestão ao barman. Só naquela porque há barmans coff coff cervejas para todos os gostos e também para quem não aprecia (a cerveja) por aí além como é o meu caso. Nós pedimos a cerveja Framboise. A Joana, não concorda com a minha seguinte descrição - que fica muito aquém na opinião dela - mas para mim foi uma mistura de groselha com sangria. Mas atenção, groselha sempre foi uma paixão minha desde miúda e sangria neste caso não seria uma qualquer. A melhor sangria que já bebi foi uma de frutos vermelhos no Guilty by Olivier, em Lisboa. Essa sim, maravilhosa, é a que entra na mistura da minha descrição. Por isso, a Framboise na minha consideração bate vastos pontos e é digna de vos ser recomendada. 

Outra coisa bastante engraçada é todas as cervejas serem servidas no seu respectivo copo, podendo até chegar a ser uma ofensa quando não acontece. Acho que já se percebeu que lá a cerveja é assunto muito sério. Talvez por isso não seja de admirar que muitos fanáticos venham até este sítio para poder saborear cervejas do Japão, África do Sul ou até mesmo oriundas da Tanzânia. Um verdadeiro paraíso para os seus amantes e muitos estudantes que tornam o local num dos mais cool para sair à noite na capital. 

1.11.16

As Frites, O Atomium e o Sushi



De volta ao centro de Bruxelas, experimentámos as famosas frites. Enganam-se se, tal como eu, pensavam que as batatas fritas tinham a sua origem em França. Na altura do seu descobrimento, fez-se confusão por também os belgas falarem francês e nomearam-lhe a origem errada. A verdade é que as famosas e autênticas batatas fritas - estaladiças por fora e cremosas por dentro - foram criadas por mãos belgas e o país não podia ter mais orgulho nisso. Nós pedimos dois cones pequenos de frites mas o tamanho era tudo menos pequeno. Foi aí que percebi que na cultura belga, pedir um cone de frites era o mesmo que almoçar ou jantar. E depois? Depois era preciso escolher um molho no meio de uma lista de nomes desconhecidos como Samurai, Brasil e tantos outros que só se tem uma ideia pedindo primeiro para provar. Eu arrisquei e escolhi o molho Andalouse - aconselhada pela Joana que optou pelo mesmo - feito com maionese, molho de tomate, pimentos e limão. Eu adorei estas frites e o respectivo molho. No entanto, como não sou grande apreciadora de batatas fritas acredito que a minha avaliação não seja muito crítica - num país que se espera que tenha as melhores - e que o sítio onde fui possa não ser o top da cidade. E a mascote Senhor Batata? Fiquei rendida. 

Fomos em direcção à estação de metro de Heysel e avistámos o Torre Eiffel de Bruxelas facilmente. Com uma altura de 100 metros, em forma de cubo e com um total de 9 esferas, o Atomium foi construído para a Expo 58 com um olhar já bastante futurista para a época. Uma mistura entre arquitectura e escultura que conquistou o coração dos belgas e continua a cativar turistas. Acabei por não entrar porque já não tínhamos muito tempo. Mas de qualquer forma também não fazia muita questão porque tinham-me avisado que as exposições no interior não correspondem às expectativas que se leva do seu exterior. Se alguém já foi, não se ficou por admirar toda aquela arte espelhada e é da opinião que o interior é uma visita a não perder, pode partilhar em comentário. 

No caminho para casa e novamente em Stockel, fomos buscar o jantar a um sítio de certa forma especial. Nos primeiros dias após a partida da Joana em Janeiro, recebi várias fotos enviadas por ela. Em uma delas constava um restaurante de sushi. Na altura recebi com carinho aquela memória de mim como uma viciadérrima em sushi ao ponto de ela já nos imaginar ali. Mas ao mesmo tempo, não tinha a certeza que isso iria mesmo acontecer. Quando dei o primeiro passo para dentro do espaço, senti-me inexplicavelmente feliz. Primeiro, a fotografia tinha-se tornado real e segundo, ia comer sushi. Ou talvez pela ordem contrária. Brincadeirinha. 

Um amigo da Joana apareceu por lá e deu-nos boleia até casa, onde fomos surpreendidas com a preparação de um churrasco. Os infinitos roomies da Joana convidaram-nos e nós juntámos o sushi à mesma. A noite fez-se ali, num final de tarde que se demorou entre conversas e piadas. O desafio da noite foi ensinarmos um roomie alemão a cantar a música Amar não é pecado do Luan Santana. Não há comédia maior do que ver alguém com aquela pronuncia alemã carregada a imitar a fluidez brasileira. Just try it! ahah

31.10.16

A Floresta Azul


Naquela manhã partimos para sul de Bruxelas. Um amigo da Joana fez um roteiro para os dias que eu lá estava e uma das coisas que ele tinha indicado era a Blue Forest. Apanhámos o comboio na estação central de Bruxelas e em coisa de meia hora chegámos à cidade de Halle. Como o objectivo era poder perder várias horas pela floresta, não fiquei a conhecer muito de Halle e a cidade também me pareceu bastante pequena. Além disso, não demorei muito tempo a perceber que a sua língua oficial era a holandesa. Foi quando estávamos nós as três - sim, porque neste dia também fiquei a conhecer a Marlene, uma amiga que a Joana conheceu em erasmus e também era portuguesa - a perguntar na estação qual o autocarro que nos poderia levar até à Blue Forest que ficámos a perceber que não valia a pena. Ali ninguém lhe chamava Blue Forest, mas sim Hallerbos que significa Floresta de Halle em holandês. O mais engraçado foi o facto de ter sido um senhor japonês que nos ajudou a chegar a esta tradução, a última pessoa que teríamos ponderado ser capaz de nos entender. Aliás, o autocarro que apanhámos em direcção da floresta ia apinhado de japoneses. Foi engraçado poder confirmar esta ideia que tinha sobre o significado e a importância que a cultura japonesa dá às flores. 

O local onde nos deixaram era algo como uma aldeia minúscula com um único café. A única estrada existente depressa se tornou em uma composta por terra batida. Sem quase darmos conta, entrámos na floresta. Árvores altas e de copas largas abraçavam-nos, deixando espaço para a entrada de apenas alguns raios de sol. O ambiente tornava-se naturalmente misterioso e quase mágico. Começámos à procura dos bluebells. Sabem aquelas flores da família dos lírios em formato de sinos? A Blue Forest é conhecida por todo o seu chão ser (literalmente) um tapete denso dessas flores entre os tons azulados e arroxeados. Eu esqueci-me de levar a bateria da máquina fotográfica - coisa pela qual me culpo ainda hoje e não é pouco - então se quiserem ter uma pequena amostra do que vos falo podem ver (AQUI). A nossa manhã e início de tarde foi passada a descobrir os trilhos da floresta através de um mapa que nos ofereceram por lá. Se algum dia também pensarem em visitar, terão que ter em atenção que só no final da primavera e início do verão é que estas flores estão no seu auge. 

Quando por fim voltámos à paragem da pequena aldeia habitada por não mais de vinte pessoas, ficámos a saber que tínhamos acabado de perder o autocarro. Tentámos entrar no único café do local - que por milagre tinha wi-fi - mas depressa nos avisaram que teríamos de arredar pé dali rapidamente. Já vos disse que os belgas são supeeer e chatamenteee pontuais? Digo isto com uma ponta de inveja embora naquela situação preferisse que fechassem o restaurante só algum tempo depois. Uma paragem sem bancos, umas pernas a morrer de cansaço e pouca esperança em ver o vislumbre de algum autocarro. Sentei-me no chão enquanto as minhas duas companheiras tomaram a liberdade de começar a fazer fixe para a estrada. 

- Estão a gozar... certo? - gaguejei eu incrédula mas sem conter o riso.  
- Então se não for assim nunca mais saímos daqui... 
- Mas o autocarro não vai chegar dentro de uma hora?
- Acho que sim mas sinceramente não tenho a certeza e ainda queremos ir ver o Atomium hoje...

Não respondi a pensar em quão mínima era a probabilidade de algum dos vinte habitantes da aldeia lembrar-se de ir até Halle de carro e naquele momento. Dez minutos passaram e no fundo da minha consciência suspeito que estou a ouvir o som de um motor. Olho para a minha direita e é verídico: um carro aproxima-se. Olho para elas e já as vejo de braço esticado na berma oposta da estrada. Eu estava do lado da sombra a dar sustento à minha nova designação de madame, claro. Se bem que o aposento era a pedra mais larga que achei no meio da terra batida, mas isso é irrelevante. Humm.. estará a abrandar? Parece que... que... que... vai... parar... ahhhh não parou. Ahahahahahah sem fim, o que eu me ri. E eu ainda pensava que o problema era alguém passar. O problema era alguém passar e querer levar-nos a nós, usurpadoras da boa vontade dos inocentes, surripiadoras de carteiras ou até mesmo três possíveis serial killers. Estávamos, basicamente, tramadas e sujeitas à aparição de algum autocarro. 

Mais dez minutos passaram e eis que surge um novo carro. Ao longe parecia uma esperança mas ao perto percebi que agora quem iria recusar entrar seríamos nós. Dois homens guiavam na frente e pararam. Vejo-as a trocar palavras com eles em francês. Chamam-me. 

- Oi? Mas acham mesmo que vamos agora entrar aí? - disse eu prontamente e demasiado segura que ninguém ia entender por ser português.
- Não temos outra opção. O autocarro pode não aparecer. Além do mais, quem está a guiar é o avô, ao lado é o pai e no banco de trás está um bebé, vê. 

Era verdade. Estava ali um bebé. Mas o que é que isso queria realmente dizer? Não se tratava de preconceitos mas a verdade - que até poderia não ter nexo nenhum - é que me sentia muito mais confortável a aceitar boleia de gajas e de preferência da nossa idade, se não fosse pedir muito. 

O bebé levanta a mão na nossa direcção a querer dar-nos algo azul que rapidamente identificámos como um bluebell.

- Olha que fofo! Está a querer oferecer-nos a flor... - dizia uma delas.

Entrei no carro a suster a respiração. A cada travagem, a cada curva, a cada mudança de direcção eu me interrogava. E se nos estão a raptar? Bem, se nos estivessem a raptar eu não saberia porque nem sabia qual era o caminho certo. E naquele momento percebi. Tudo aquilo que podia fazer era respirar fundo e viver a aventura. Não tinha vindo para a Bélgica para ser uma turista. Tinha vindo para mostrar a mim própria que era capaz de me desafiar e superar coisas nunca antes vividas. Tinha vindo para sair da minha zona de conforto e para coleccionar memórias que não se adivinhavam no guia turístico da cidade. Tinha vindo para redescobrir-me. Olhei pela janela, apreciei a floresta a diminuir de tamanho e pensei: que sorte que tenho em estar aqui. 

23.10.16

A praça mais bonita da Europa


Só há uma coisa com a qual eu não passo sem todas as manhãs e essa coisa chama-se café. E não estamos a falar de cafés aguados ou cheirinhos a café como galões e cenas que tais. Estamos a falar de café expresso, bicas ou cimbalinos. Não importa que nome lhe dão desde que percebam a consistência energética de que falo. A primeira coisa que me ocorreu no meu primeiro acordar em Bruxelas foi: cadê o café?! Não há forma de voltar ao mundo real sem essa poção e se há coisa que não estava habituada, era a esforçar-me por encontra-lo. Desisti e assim que avistei o Starbucks não saí de lá sem o café mais forte que consegui pedir. E eu, que somente sonhava com um expresso há horas, tomei conta naquele preciso momento do meu mini défice de auto-controlo para com a cafeína. 

De energias repostas, comecei finalmente a prestar atenção a tudo aquilo que a Joana me mostrava. Neste dia, saímos na estação da Gare Centrale e tínhamos decidido tirar toda a tarde para conhecer o centro de Bruxelas, mais precisamente a Grand Place. Posso-vos dizer que é uma das praças mais encantadoras e surpreendentes que já vi. O dia de sol também ajudou porque todas as fachadas cobertas a ouro reluziam. Magnífica, mesmo. E com uma temperatura óptima para percorrer todos os seus cantos. Não é de admirar que já tenha sido eleita várias vezes como a praça mais bonita da Europa. 

Muito perto da Grand Place ficam as Galeries Royales Saint-Hubert. A sua cobertura é de vidro e em formato de arco, o que nos dá a sensação de continuarmos no exterior e não de termos entrado num espaço comercial. O que é que eu posso dizer? Vitrines maravilhosas, lojas tradicionais com os lendários e deliciosos chocolates belgas, outras tantas lojas de marcas e artigos de luxo. Uma verdadeira perdição no que toca a ambientes de glamour e elegância e que está muito bem conservada. Conseguimos encontrar detalhes históricos nas fachadas de cada loja. Só não coloco aqui mais fotografias porque não resisto a não dar destaque aos macarons Pierre Marcolini! Por favor, quando forem a Bruxelas, entrem nesta loja e não deixem de trazer os vossos sabores favoritos. Não há palavras para defini-los. Os meus eleitos foram o de caramelo (que quase já estava esgotado), baunilha e maracujá (por recomendação da Joana). 

Termino este post com fotografias de uma rua que me deixou surpreendida. É a Rue de La Chaufferette e está pintada de forma pedagógica e por vezes irónica sobre o preconceito  relativo à  homossexualidade. Fiquei bastante feliz por ver tanta abertura e descontracção em relação ao tema em Bruxelas. Definitivamente, um passo mais à frente e contra a discriminação na capital da Europa o que me levantou as esperanças e fez pensar que um bom caminho será seguido no futuro.

20.10.16

o El Cafe em Ixelles em #hepburnmood

 

- Sim, deixa-me só meter o rímel e estou pronta! - disse enquanto saía do quarto e ia em direcção à casa de banho. "Uaaaauu" pensei. A casa de banho era enorme. Tinha um espelho que quase ocupava uma parede, um tecto todo forrado a madeira, uma bancada de dois metros que dava para alojar ali uma real colecção de produtos e maquilhagem, armários, um estendal para as toalhas, um aquecedor, uma banheira... e... a... sanita... cadê a sanita?! Dei três voltas no mesmo sítio. Como assim uma casa de banho sem sanita? Pobre, Joana. Deviam ter-lhe dado a pior casa de banho convencendo-a com todos aqueles apetrechos desnecessários. Procuro por outra casa de banho. Não tem sanita. HAM? Desço as escadas e entro em mais três casas de banho diferentes. Nenhuma tem sanita! Mas.. Como assim?! 
- Joana! Há alguma sanita nesta casa?! 
- Ham? Então não viste a sanita? Está ao lado! - dizia ela de ar sereno perante a minha cara de estupefacção.
- Qual lado?? Eu olhei para todos, até fui lá abaixo! 
- Na porta ao lado!! - dizia ela agora a rir-se. 
Era verdade. Naquele corredor e junto à porta da casa de banho existiam mais quatro portas. A porta do quarto da Joana, duas portas de dois colegas de casa e a porta da sanita que mais parecia a porta de um outro quarto qualquer. Abri a porta e parti-me a rir. 
- Mas o que é isto? Isto é ridículo... Isto chega a ser intimidante! - dizia-lhe eu enquanto via aqueles dois por dois metros a limitar uma área forrada a azulejo e chão branco, nenhuma janela, nenhum suporte e apenas e somente uma sanita branca posicionada de frente para mim. 
- Então é mesmo assim. Aqui as casas de banho típicas belgas são todas assim e já visitei outras casas e continuam a ter esta divisão. É uma questão de hábito!
Amigas, aquilo foi tudo menos uma questão de hábito. Encarava aquilo como o asilo sanitário de quem ponderou não vir a encontrar uma sanita naquela casa. Ainda hoje me pergunto porque fazem algo assim. 

- Nós temos sete SETE S-E-T-E minutos para chegar à paragem do tram e temos mesmo que apanhar este que o próximo é só daqui a uma hora. - dizia ela enquanto vestia o casaco à pressa.
- Está bem. - disse eu com a calma de quem não sabe o que espera. 
- Estás preparada? - inquire-me enquanto tranca a porta de casa.
- Preparada para quê?
- Cooorrrreeeeee! 
Quando me volto para perceber o que se passava, já a Joana está metros à minha frente a correr ao encontro da passagem verde que no meio daquela escuridão apenas era um grande buraco negro. Isto tudo, debaixo de uma catrefada de chuva e no meio de cruzamentos e ruas que para mim eram todas iguais,  tornou-se numa experiência singular. E eu que tantas vezes pedi à Joana para irmos correr em Lisboa e tinha ouvido sempre um não como resposta. 
- Amigaaaaaa é preciso vir à Bélgica para te ver a correr? - perguntei eu assim que a apanhei.
- Rápidoooo rápidooo! - só dizia ela.
- Então mas de certeza que atrasa um minuto ou dois... 
- Não estamos em Portugal! - relembrou-me.
E era verdade. Com menos pinta que o eléctrico português mas bastante mais moderno, o trem chegou à paragem no preciso momento em que nós também a alcançámos. 
- Vês.. - dizia ela. E eu via. Via-me com um segundo banho em cima e cheia de calor num país em que só me diziam para ir agasalhada.

Não tardou a chegarmos a Ixelles. (Uma pergunta. Sabem quem foi a linda que nasceu em Ixelles? Quem, quem, quem? A AUDREY HEPBURN!! Muito amor por Breakfast at Tiffany's nesse momento.) A zona era muito frequentada por jovens, bares para sair à noite e pela comunidade portuguesa. Segundo o que ela me dizia, era lá que matava as saudades dos pastéis de nata. Primeiro reunimo-nos na casa de um amigo da Joana e depois de algum warm up e jogos de matraquilhos, fomos para o El Cafe.  Foi neste restaurante-bar texano-mexicano e rodeadas de cocktails que a Joana me apresentou grande parte dos amigos de erasmus que já tinha feito. Foi uma noite bastante agradável e que terminou com uma descoberta também bastante interessante. Quando quisemos voltar para casa, todos começaram a falar de um tal collecto. Eu não sabia o que era e ainda pensei que fossem eles a discutir que iam todos "colectivamente" para casa. No entanto não era nada disso. 

Em Bruxelas, alguns táxis transformam-se em collectos entre as onze da noite e as seis da manhã. E como é que isto funciona mesmo? Basta terem a aplicação para chamarem - como no caso da Uber - e seja qual for a distância que façam - dentro da parte central de Bruxelas - só pagam 5 euros por pessoa. Coisa que é só assim fantástica tendo em conta os preços dos táxis em Bruxelas. Além disso, chama-se collecto porque enquanto existirem lugares vagos e pessoas que também tenham chamado e estejam no nosso percurso, também elas apanharão o mesmo collecto que nós. Por exemplo, imaginemos que isso existia em Lisboa. Se eu e a Joana tivéssemos apanhado um táxi-collecto em Belém e quiséssemos ir até ao Campo Pequeno, ficariam ainda três lugares vagos. Logo se houvesse duas pessoas que quisessem ir também até ao Campo Pequeno, estivessem no jardim da Estrela e tivessem pedido um collecto com essas indicações, iríamos recebe-las no nosso e partilha-lo. Eu achei aquilo o máximo e uma excelente forma de ficar a conhecer a vizinhança, quando era interessante, claro! 

18.10.16

o Parc du Cinquantenaire





Agarro-me firmemente a um dos pilares do metro enquanto berro:
- JOANAAAAA, porque é que isto está a andar tão rápido??
- Rápido? Achas que a velocidade está rápida? - ria-se ela.

Dizer que é o dobro do andamento do metro de Lisboa, é pouco. Aquele pequeno TGV subterrâneo não perdia tempo e eu - pessoa com um equilíbrio considerado bastante satisfatório - que me agarrasse ao que visse mais fixo. Vindas directamente de Stockel, saímos na estação de Merode que ficava na mesma linha. Um pequenino oásis verde de 30 hectares surgiu-nos à frente. Agora percebia porque é que o Parc du Cinquantenaire era uma das maiores atracções em Bruxelas. Quem não se maravilhava com aquele espaço todo de jardins sem fim e impecavelmente cuidados? Vi bastantes jovens de toalha estendida a aproveitar os primeiros raios de sol, outras tantas famílias em modo pic-nic e a verdade é que não era para menos. Atrás de nós começava a Avenida de Tervueren e por cima estavam as arcadas mais imponentes de Bruxelas. 

Aquele momento, aquela visão, aquela tranquilidade... é algo que vos aconselho como um must visit! É no edifício que enquadra o arco que também estão instalados vários museus. Aqueles que mais destaco são: o Museu Militar e o respectivo salão só para vários tipos de aeronaves e o Autoworld. Um museu de carros europeus e americanos desde o final do século dezanove ao final do século vinte. É aqui que poderão encontrar os clássicos e vintage bentley e suspirar pelas limousines que pertenciam à família real belga. 

Não demorou muito tempo até captarmos a essência de baunilha. Aliás, mais tarde vim a descobrir que difícil era encontrar um sítio em Bruxelas em que não me sentisse invadida pelo aroma das gouffres acabadas de fazer. Se Bruxelas tivesse apenas um cheiro dominante, seria sem dúvida esse. Descobrimos a culpada a poucos metros de distância. Uma carrinha ambulante que nos tentava a cada passo dado em sua direcção. Não resistimos e partilhámos uma gouffre. Não era má mas também não era a melhor (sim, é verdade, mesmo com esse aspecto irresistível e fotogênico que comprovam na fotografia. Mais tarde dir-vos-ei onde comi as minhas preferidas). 

Percorremos todo o parque enquanto ela me metia a par das últimas novidades e me aliciava a ir sair ainda naquela mesma noite. Conversámos, andámos e rimos até chegarmos a Schuman. A seguinte estação de metro que era habitada pela Comissão Europeia. A quantidade de bicicletas era impressionante. A quantidade de homens de fato a andar de bicicleta ainda o era mais. E a atitude de I'm Sexy and I know it não ficava atrás. As bicicletas eram para os belgas como as vespas são para os lisboetas. Um ícone de estilo só que um pouco mais avançado a nível da saúde e do ambiente. 

- Anda! Despacha-te! Vais ter tempo para tirar mais fotos! Isto aqui vai ter que ser sempre "siga, sigaaa, sigaaaaa"! E olha, já estamos atrasadas que eu combinei com eles em Ixelles às oito e meia - apressava-me ela como quem já conhece a peça e sabe que poderia estar ali perdida nas horas a fotografar cada canto. Mas o que é que eu poderia reclamar? Estava na capital da união europeia e como era esperado em qualquer capital, não havia tempo a perder. 

17.10.16

Les Délices de Mon Moulin



Não passámos muito tempo dentro de casa. Ela estava ansiosa por me mostrar o seu novo mundo e eu confiando em todas as ideias que falava, apenas segui os seus passos. Voltámos a descer aquela passagem verde até à praceta de Stockel enquanto decidíamos onde íamos comer. Conhecendo o meu gosto por sítios insta-fancy, ela achava que a expectativa estava alta quando na verdade tudo aquilo que eu queria era recuperar energias para não perder nem um segundo daquilo que nos esperava. 

- Qualquer coisa serve. - retorqui. E era verdade. Por mais alta que fosse a minha selecção nos tempos idos com a Joana em Portugal, para mim tudo lá era novidade, qualquer sítio que ela me mostrasse me iria encantar de uma forma especial porque seria efectivamente o nosso primeiro encontro belga. 

A entrada do metro de Stockel era dentro de um mini centro comercial e foi ali que avistámos o lugar ideal. Um café que servia refeições rápidas e também um número considerável de pessoas a serem atendidas. Sempre me disseram que onde há fumo, há fogo. Por norma e para mim, isso sempre serviu como indicativo para os melhores sítios. Até porque se não fosse bom, o que estariam a fazer ali aquelas pessoas todas? Boa publicidade? Não nos pareceu que fosse o caso e entrámos. Chamava-se Les Délices de Mon Moulin. Talvez mesmo por o nome falar em delícias, ela começou por dizer para sermos o mais saudáveis possível (já que eu nem fazia ideias das tentações que por aí vinham e que essas sim, seriam calorias bem gastas, segundo ela). Mas os 6km que eu tinha corrido todos os dias nas últimas duas semanas falavam mais alto. 

- Ao menos partilha comigo o doce mais bonito que eles aqui tiverem. - disse eu enquanto ela se deixava rir e aceitava com um gesto de cabeça.

Voltei-me para quem estava atender. Um género de namorado da Vanessa Martins em versão belga. 
- Hello... So... I'm just wondering... which one do you recommend? - falei eu enquanto apontava para a montra mais calórica.
- Bonjour. Excuse-moi, parles français? - respondeu o pasteleiro giro com quem poderia ter um pequeno flirt mas que morreu logo ali. 
- Joana... Vem aqui... - chamei eu desiludida por ter escolhido espanhol no sétimo ano. Mas talvez até fosse melhor assim. A chave da vida é nunca duvidar das próprias voltas que a vida dá e qualquer dia poderia estar ele a fazer check-in de malas no aeroporto. No que toca a coleccionar sustos desses, prefiro dedicar-me a abster-me. 

A Joana, querida amiga minha que já vivia ali há três meses e teve o bom senso de escolher francês no alto dos seus treze anos de idade, descaradamente me roubou o flirt e teve direito a uma relíquia de sobremesa. Filha da mãe.

Conclusão 
Adorámos a nossa refeição neste sítio e não só pelo valor sentimental de ser a primeira. Embora consigam comprovar ainda algumas lágrimas na foto com que iniciei este post e que foi um dos primeiros snaps da Joana (vejam rápido que é possível que ela me obrigue a apagar essa lamechice quando vir). Entretanto descobrimos que há vários cafés deste género por diferente bairros da Bélgica. Por isso tomem nota, foi uma descoberta com várias refeições rápidas saudáveis e não saudáveis a um preço super acessível e que recomendamos.  

Conclusão número 2
Não levem amigas que dominem o francês.
Muito menos melhores amigas.
Essas conseguem ser ainda piores. Humpf.

16.10.16

CHEGUEI!! ONDE ESTÁS??






O voo foi apaziguador. Dores de ouvidos? Nem vê-las. Apenas os pés se duplicaram de tal forma que me obrigaram a desapertar os atacadores dos ténis. Olhava pela janela e detestava não saber o que sobrevoava. Uma vontade de ligar o google maps tão descomunal quanto descabida. Cá para mim - tal como avisam sobre a futura passagem do carrinho da papa e o timing certo para comprar perfumes e tudo o que eles vendam - também podiam avisar (pelo menos) quando sobrevoássemos um novo país. Se há alguém por aí que seja perito em Geografia e consiga decifrar o que se situa por baixo a cada meia hora que se acuse. Gostava de ter algumas dicas e sentir-me mais internacional quando voltar a voar (o que está para breve, mas vamos deixar esse novidade para quando esta história terminar). 

Uma aterragem que não se sentiu e eu estava, oficialmente, na Bélgica. Estacionaram o pássaro junto do seu respectivo bando. Dez minutos depois estava eu a ser encaminhada para um túnel enquanto panicava por só ali ter dado conta do meu miserável 1% de bateria. Culpa de todas as mensagens que enviei antes de partir (como se me fosse despedir deste planeta e rumasse até Marte), de todas as fotografias que tirei para comprovar mais tarde que tudo aquilo era mesmo verdade (e para vos mostrar, é claro) e das duas horas a ouvir o Un-thinkable (I'm Ready) da Alicia Keys de forma incessante. Novamente, não me julguem. Ouvir aquelas letras dava-me um bónus de confiança extra. And if you ask me I'm ready I'm readyyyy! Ok, chega. 

O telemóvel desliga-se. Fenomenal, como é que eu encontro a Joana agora? Tinha o computador comigo mas o carregador vinha na mala de porão. Perdida mais uma vez. Percorro o átrio daquele aeroporto encantada com as paredes envidraçadas e o chão de glitter. Era realmente de outro mundo, um mundo a mil e setecentos e treze quilómetros. Procuro pelo sítio onde possa receber a minha mala de porão mas não encontro nenhuma direcção específica. Tento aproximar-me de um balcão onde me possam ajudar e antes de pronunciar o que quer que seja alguém se adianta:
- Yes, Madame? - diz uma jovem pouco mais velha do que eu de cabelos loiros, olhos azuis e uma pronúncia charmosamente francesa. Ahhhhhhhhh ela chamou-me madame e chamou de forma honesta e sem ironias. Posso estar perdida da vida, não encontrar a saída daqui mas agora sou uma mademoiselle, como não amar imediatamente este sítio? 

No alto do meu alter ego francês - sim, porque isto de ser madame é quase como acarretar uma mistura de Brigitte Bardot com a Marion Cotillard - consegui finalmente encontrar a sala dos tapetes rolantes. Ainda nem tinha percebido bem o tapete que estaria responsável por entregar a bagagem da minha viagem, quando já vejo A mala a ser levada na direcção oposta. Corro desengonçadamente até  alcançar a mala, como quem não sabe que elas só saem daquele carrossel ao fim de mais de trinta voltas. Ora se a minha compostura credível de título francês já tinha sido meio abanada, após ter que abrir e revolver a mala de porão em pleno aeroporto, foi mesmo por água abaixo. Ah pois, querias ser madame? Não tivesses guardado o carregador no fundo da mala como se só fosses precisar dele daqui as três dias. 

Ligo o telemóvel ao computador e tento ligar à Joana assim que ele volta a dar sinais de vida. CHEGUEI! ONDE ESTÁS?!? Não a tinham deixado entrar porque a segurança no aeroporto tinha sido reforçada devido aos atentados. Agora só quem fazia o check-in podia entrar e apenas quem tivesse acabado de aterrar podia estar dentro do edifício. Ahhh, tudo bem... eu encontro a saída certa neste mundo de corredores... self-sozinha... again.

O momento em que volto a ver a Joana é algo que não consigo descrever por palavras. Foi literalmente um mix of feelings. Apenas vos posso dizer que durante todo o percurso de autocarro que fizemos do aeroporto até Roodebeek, eu consegui interromper a nossa conversa para lhe perguntar mais de cinquenta vezes:
- Acreditas que estamos mesmo aqui?? Na Bélgica? Em Bruxelas? Por favor, espenica-me!

Roodebeek era um local calmo com terminal de autocarros que tinham percurso directo até ao aeroporto e também uma estação de metro. Um género de Sete Rios belga. Foi lá que entrámos no metro e nos dirigimos a Stockel, a última paragem da linha de metro e o local onde a Joana vivia. Finalmente confirmei o que meses antes ela somente relatava sobre Bruxelas: é tudo tão verdinho. 

Era verdade, partilhava agora a admiração dela. Todas as casas tinham jardins em Stockel. Mas não era uns jardins banais. Eram jardins verdadeiramente arranjados, com gosto, dedicação e até me atrevo a dizer, carinho. Nunca na minha vida tinha visto um bairro tão bonito e com uma beleza tão natural. A casa onde a Joana tinha alugado quarto era enorme. Sabem a casa do Kevin McCalister do Sozinho em Casa? Era o mesmo género mas com a diferença de que cada "irmão" era de uma nacionalidade ou canto do país diferente. Só para terem uma noção para chegar ao quarto onde fiquei tive que passar a entrada, subir um andar, atravessar outro corredor, subir outro andar, abrir uma porta que dava para outro corredor que tinha que atravessar e só depois chegava a um pequeno espaço onde se encontrava a porta do quarto. Eu não me considero uma pessoa medrosa mas aquela não seria de maneira nenhuma a casa onde eu ficaria sozinha durante muito tempo. E nem estou a falar de noite porque isso então estaria mesmo fora de questão. Deixo-vos algumas fotografias: a segunda (que tirei da janela do quarto dela), a terceira (que tirei a uma passagem que mais parece saída de um filme e pela qual passávamos mais de duas vezes por dia) e a quarta (que é só assim uma das casas mais cómicas que por lá encontrei e a qual apelidei de casa cogumelo). 

15.10.16

A Partida



Pensei em ir tomar um segundo banho. Gelado para cancelar todo aquele calor que me saía do corpo. Disseram-me para vestir a quantidade máxima de roupa de forma a poupar espaço na mala. Mas como é que eu alguma vez conseguiria vestir ainda mais - uma camisola, um casaco e rematar com o kispo - se apenas de top já estava em modo deserto do Sáara nível 5? Roguei mais umas quantas pragas ao saco-cama por me ocupar metade da minha maior mala. Quis desistir de algumas camadas de roupa mas conformei-me quando actualizei a meteorologia no iphone de Lisboa para Bruxelas. 

- Terminal 1 ou Terminal 2, menina? - perguntou-me o taxista quando nos aproximávamos. Xoda-se, no meio daquilo tudo, nem sabia para onde ia. Mas porque é que fazem dois terminais num aeroporto porquêeeeee? Nem estava explícito no bilhete! Ou será que estava? Ok, já nem me lembrava. Tentava recordar-me do bonito momento em que decidi que seria boa ideia ir só ali andar de avião sozinha. 
- Ahhhhhh... deixe-me naquele que seja o principal e tenha mais opções. - fingiu o meu lado mais pragmático. 

Chego perto de um painel luminoso. Há assim tantas pessoas a partirem neste momento? Incrível, podia estar a um passo de ir para qualquer lado. Qualquer canto do mundo. Não é que uma pessoa não soubesse já todas as facilidades que existem mas era impossível não me deixar encantar com aquela consciencialização da verdade. Por fim, encontro o meu destino com o diminutivo BRU. Sorri. Ai Brubru, I already love you. 

Há várias coisas que uma pessoa deseja que aconteçam quando por fim chega a um aeroporto. Como por exemplo manter a calma. Mas nunca, NUNCA, ficar a saber que tem que se dirigir a um quiosque self-check-in. Amigos, eu já cheguei self-até aqui, já carreguei estas malas de chumbo com as self-mãos, e tenho esta ideia maluca de me enfiar num avião self-sozinha. Tudo o que eu quero é que uma pessoa certificada me faça o check-in e diga "Well done, Patricia. Está tudo nos conformes, agora só precisa de esperar aqui até que a chamem para entrar no pássaro." Também pode dizer "Garanti-lhe um óptimo lugar junto à janela que dá para tirar fotos fancy para o instagram". Mas recambiarem-me para o self-check-in? NÃO. Aguenta coração.

A tarefa até que não foi árdua. Aliás, por parecer tão simples nem acreditava que estava completa. O quê? Já está? É só assim? Orgulhosa de mim mesma, peguei no meu boarding pass e segui para o próximo passo. Ok... Agora a mala. Procurei no átrio pela fila da TAP e aguardei pela minha vez. 

- Nome?
- Patricia. - respondi eu enquanto pegava na minha bebé e tentava posiciona-la para seguir viagem naquele labirinto que só as malas de porão conhecem. 
- Não, nome completo.
- Patrícia Murteira. - corrigi enquanto terminava a manobra e questionava se não tinha exagerado no peso da mala. 
- Patrícia?!
- A... sim? - levantei a cabeça.
- Sou eu! - respondeu um rapaz moreno que finalmente olhei nos olhos mas mesmo assim me parecia desconhecido. 
- A... - o meu ar de dúvida é sempre demasiado honesto.
- Sou eu, o André, não te lembras de mim? - testou-me ele mais uma vez.

Em quatro milésimos de segundo, voltou-me tudo à cabeça. Esforcei-me para não esbugalhar os olhos. Tinha conhecido aquele rapaz, nos inícios de 2014, numa saída à noite em que era suposto irmos ao Main mas acabei por ir com amigas a outra discoteca - da qual já nem me lembro o nome - que ficava numa travessa perto da 24 de Julho. Um ligeiro flirt que acabou com ele a pagar-me uma garrafa de água porque eu teimava em dizer que não bebia álcool e ele teimava em pagar-me uma bebida. (Uma garrafa de água. Eu sei, por favor não comentem esta parte.) Entretanto tínhamos trocado números (parva, parva, parva) e mais tarde eu disse-lhe que não estava interessada em um segundo encontro, se é que aquela noite se podia chamar de encontro. Acontece que sempre fiquei com a impressão que ele não gostou muito da recusa que sentiu e nunca mais tínhamos tido contacto. Portanto sim, meu deus, aquela era a primeira vez que o via depois dessa noite. Se por um lado pensei "enaaaa, até que é giro, afinal sempre não tenho mau gosto quando saio à noite", por outro aterrorizei, afinal de contas, eu devia-lhe uma "garrafa de água" e ali estava ele, a dar destino a minha mais que preciosa - e ainda nem totalmente paga - mala. "Mas ele não dava treinos de futebol a putos?!?" lembrei-me eu como se fosse mudar alguma coisa naquele preciso momento. 

- Ahhhhhhh... Oiii... Andréee... tudo... bem... a... contigo... que.. estás... fazer... aqui? - proferi enquanto comandava a mim própria ser simpática como se nunca nada tivesse acontecido e ele fosse um amigo da primária. 
- (resposta que não ouvi devido ao meu estado de perplexidade para com o karma, confesso - embora ainda hoje tenha a suspeita que ele falou algures em um part-time)
- Ahhhhhh... Que bom! - exclamei eu mas que bom o quê realmente? Não sabia, mas parecia simpático de se dizer. 
- Então e tu? Vais viajar é?
- (Não, as malas é que vão sozinhas para Bagdá) Siiim, vou para Bruxelas ter com uma amiga. - disse enquanto pensava que na verdade era uma amiga que também ele conhecia mas que não seria necessário ir buscar detalhes irrelevantes para aquele situação já incrédula por si só, certo?
- Que fixe! Olha estou a ver aqui o lugar que escolheste no quiosque mas vou altera-lo para um bem melhor. - afirmou ele com um sorriso.

Pronto. Agora sim. Estava tudo tramado. Perdido. Adeus, Joana. Tentei até ao fim. Andei eu durante um mês a achar que o meu maior problema seria a descolagem, a aterragem, o próprio voo, os atentados, quando na verdade o meu problema era ainda antes de partir ter passagem directa para um lugar no canto mais obscuro e frio do porão. Socorro! O que é que eu faço? Onde me poderei queixar de um atendimento vingativo?! Não existe linha de apoio para isto. Por favor vem mais tarde karma! Hoje não, ainda não é o dia! Ele deu-me um novo boarding pass e eu agradeci de sorriso amarelo deixando um "que querido" no ar enquanto me despedia, quando na verdade aquilo que mais queria era ver se existia uma letra junto do número do lugar. Existia, era um 12F. Hummm, a organização do porão também teria letras? Talvez ele só me tenha colocado no lugar mais perto da casa-de-banho, mais longe da janela e sem direito a refeição. Agora já não havia nada a fazer. 

A seguinte hora e meia foi de uma ansiedade tão grande que acabei com as pastilhas que tinha levado para não ter dores de ouvido, ainda antes de ter entrado no avião. Fantástico. Momentos mais tarde sentava-me no lugar marcado por ele. Era ao pé da janela e na saída de emergência. Não sabia se ele o tinha feito porque:

a) era um gajo fixe-prestável-que fazia bem o seu trabalho
b) era um gajo fixe-prestável-que fazia bem o seu trabalho e ainda tendo o meu número, ia voltar a reivindicar a garrafa de água que lhe estava em dívida. 
c) era um gajo com mau coração que tinha esperanças que o avião avariasse e eu fosse a primeira a saltar por aquela porta fora. 

Ainda não me tinha acalmado quando o avião começou a andar. Pensei em fechar os olhos mas não consegui. Precisava de ver para acreditar. De um momento para o outro, o mundo cresceu e pareceu não mais acabar e eu - que por medidas físicas hereditárias nunca antes me o considerei - senti-me pequenina. 

14.10.16

10 horas antes de partir



Tudo começou a ser mais fácil. Tinha tantas dúvidas na minha cabeça que não havia espaço para mais nada. Precisava de uma mala de porão mas não queria que fosse apenas uma mala. Tinha que ser A mala. Se me ia marcar de uma forma tão especial, teria que me acompanhar e dar sorte em todas as minhas próximas aventuras. Procurei por várias em diferentes lojas. O meu único critério é que não podia ser grande. Depois de me ter informado sobre os limites de peso que eram incluídos no bilhete, dar-me ao luxo de escolher uma mala com espaço para levar uma casa atrás só me iria dar grandes dores de cabeça no futuro. Resolvi erradicar o mal logo pela raiz. Se não fosse muito grande, não dava para grandes imaginações. Na verdade o que era mesmo essencial lá colocar só eram duas coisas. O saco-cama e o pão de deus mais fofo da padaria portuguesa que encontrasse na véspera para a Joana. Mas continuava a ter que ser especial e nada daquilo que encontrava conseguia preencher esse lugar. Ou eram demasiado básicas, ou demasiado caras, ou com grandes possibilidades de se partirem a meio das cambalhotas que fazem até nos chegarem de novo às mãos e que uma pessoa nunca imagina. 

Os dias passavam e eu já pensava para mim mesma "Compras ali uma mala básica na Primark e deixas-te de mariquices que daqui a nada estás pior que a Pepa". Até que um dia fui ao Freeport e olhei para uma loja que nunca antes tinha reparado ali estar: Samsonite. Ao fundo, mesmo contra a parede mais longe, estava A mala. Permitam-me ser fútil e dizer-vos que me apaixonei porque esta mala assim o merece. Com um design como eu gosto, branca metalizada e o mais importante, com um mundo inteiro por descobrir. Era aquela. Tinha consciência que as malas da Samsonite não são agradáveis aos orçamentos, mas não fazia ideia que era possível encontrar várias por quase metade do preço no Freeport. Mas melhor ainda, havia campanhas de poder pagar a 4 a 6 vezes sem juros nas lojas que fossem aderentes. Não preciso de dizer mais, pois não? Foi feliz a noite em que adormeci a olha-la por entre as almofadas. 

Coloco o despertador para as cinco e meia da manhã. Vai correr tudo bem... e adormeço. 

13.10.16

329 Horas Depois - Parte 2


Nessa noite não consegui dormir. Nas poucas vezes em que quase adormeci, a primeira coisa que fazia quando caía em mim, era ver a última mensagem trocada com a Joana. Não é isso que fazemos sempre que temos um pesadelo? Procurar claras evidências de que é tudo mentira e que nos sosseguem o fôlego. Mas não era. "Vai correr tudo bem" era a última mensagem que teimava em aparecer. Vai correr tudo bem. Vai correr tudo bem mas eu já nem sabia por quem mais temia. Sentia-me segura na minha cama mas sabia que dali a oito horas teria que dali sair e continuar. Os meus pais. A minha família. Os meus amigos. Até as raparigas de erasmus com quem vivia e via com olhos de quem não tem medo de partir e viajar. Todos me perguntaram nos dias seguintes: "Sempre vais para a Bélgica? Já cancelaste a viagem? Tens seguro para te devolverem parte do dinheiro? Vais mesmo? Para aquele aeroporto? És doida. És forte. Não tens juízo. Acho que fazes muito bem. É um pouco perigoso agora que está em alerta máximo." 

As opiniões não paravam e eu, eu sabia que não podia cancelar a viagem. Não por uma questão de dinheiro. Não por uma questão de ter imensa vontade de sair de Portugal na altura. Mas sim porque tinha prometido a mim mesma. Tinha prometido que ia meter os pés naquele avião sozinha tremesse o que tremesse, e ia ter com a Joana, viesse o medo que viesse, trezentas e vinte e nove horas antes. Só não estava a contar com um atentado. Mas uma promessa a mim mesma, é das promessas mais importantes que faço e as que desiludem mais quando quebro. Eu ia cumprir o que me tinha prometido e ia faze-lo também pela Joana. Porque haveria alguma vez de querer adiar ou recusar ir ter com ela quando ela mais precisava. Fazer-lhe isso só ia fazer com que ela se sentisse na toca do lobo e não era verdade. Não era! O lobo podia fazer o seu covil lá, como a 30km de distância como a 3 metros de mim. Sim, aqui. Porque o problema não era lá, o problema não tinha morada. O problema, infelizmente, está em todos os sítios que as mentes o permitem estar. E por muito incapacitada que me sinta no que possa fazer quanto a isso, a única coisa certa que via que podia fazer era esta: não parar. Não deixar que eles ganhassem. Não me esconder. Não ter medo. E ir. 

(E assim foi. Bruges, sexta-feira, 22 de Abril de 2016. Coloco hoje e aqui esta fotografia porque corri atrás desta mulher para a conseguir fotografar. Gosto de pensar que esta fotografia revela o meu espírito na altura em que decidi ir. Segura de mim mesma, a tentar equilibrar-me nos meus receios cor-de-rosa e sem olhar para trás. Simplesmente avançar, sem cair, sem curvas, sem certezas de chegar ao destino. Mas com uma vontade extrema de o alcançar. Até já, Joana.)

12.10.16

329 horas depois - Parte 1



Acordo numa manhã de férias da Páscoa. Início a minha procura pelo telemóvel por toda a cama. Finalmente alcanço-o no ângulo mais improvável do lado contrário aquele que eu pensava estar, como sempre. Abro um só olho enquanto tento baixar a luminosidade do ecrã que teima em estar nos máximos, como sempre. Consigo perceber que são oito e pouco da manhã. A minha consciência mais responsável e sempre chata vem ao de cima. "Vá lá, acorda Patrícia, não queres voltar a ficar com os horários trocados durante as férias, como sempre." Entro no facebook enquanto pisco rápido os olhos para me habituar a luz. 

Bruxelas.
"Oh Patrícia, ainda falta um mês, pára de arranjar temas e desculpas para continuares a sonhar."
Aeroporto. 
"Sim, nós já sabemos que vais ter os joelhos a tremer assim que chegar o dia, podemos prosseguir e acordar para a vida?"
Bomba. 
"Claro que vai ser super divertido e sempre a bombar como a Joana te prometeu. Mas será preciso atirar o edredon com uma perna para fora da cama para que te levantes?"
Pisquei mais uma vez, enquanto percorria o feed sem o olhar, numa tentativa de que aquele movimento horizontal do polegar contribuísse para um despertar mais eficiente. 
Bomba, outra vez.
"Ok, desisto oficialmente de mim mesma, não consigo acordar hoje."

10 segundos depois... BOMBA?!?!?
Salto da cama. Como assim, o que é que se está a passar? Percorro todo o meu feed e em todas as notícias aparecia esta junção de palavras que ainda hoje - enquanto vos escrevo - me causa arrepios: Bruxelas, aeroporto, bomba e número estimado de mortos. Não consegui acreditar e em três metades de segundo desci as escadas da minha casa até à televisão. Todas as televisões. Até aquele caixote que não era ligado há anos. Eu queria ter todos os canais ao mesmo tempo. Toda a informação que me permitisse descobrir que tudo aquilo não passava de uma merda de um engano qualquer. Joana, Joanaaaa, Joanaaaaaaa, onde estás caraças? Vejo no chat que não está online há uma hora. Envio-lhe mensagem e ela não responde. Penso que ela nunca iria estar no aeroporto neste momento. Já deve ter ido para as aulas e está tudo bem com ela. Levanto-me do sofá e penso em ir fazer um chá para me acalmar. Optar por camomila e não por café para bebida de pequeno-almoço, foi algo que nunca tinha feito. Mas que mais me restava se tinha o coração nas mãos. A Joana continuava sem responder, mas eu estava conformada com a ideia de que ela nunca estaria no aeroporto. Mas eu podia estar. E se eu não tivesse marcado a viagem para Abril e sim para Março? Eu podia estar ali. Queria parar mas não conseguia. Queria ser forte mas não conseguia. Fiquei com medo, admito, muito medo até. As imagens que passavam em qualquer canal também não ajudavam que fosse de outra forma. Agarro-me à chávena a escaldar para aquecer as mãos geladas. Até que na cozinha consigo ouvir o som de uma nova notícia. "Actualização: há conhecimento da ocorrência de uma segunda explosão junto a uma saída de metro no centro de Bruxelas. Forte probabilidade de ser mais um ataque bombista."

Os ossos gelaram-me como costumam gelar quando entro no mar e a água parece granizo. Gelaram de uma forma pior. Gelaram sozinhos enquanto o sangue simplesmente paralisou. Queria andar e aproximar-me da sala mas não era capaz. A Joana não me responde. A Joana não devia estar no aeroporto mas podia estar no metro. Suposições, suposições, suposições. O meu pai desce as escadas e pergunta-me o que se passa e porque é que a televisão está tão alta. Inspiro e sem querer acreditar naquilo que ia dizer, respondo: "É... um aten..tado." Dou passos bruscos até ao telemóvel e escrevo uma segunda mensagem. Páro e vejo que a mensagem já foi vista por ela embora não tenha respondido. Peço-lhe por favor para ela me dizer apenas que está bem, que está em casa ou pelo menos a ir para lá. Nove minutos e meio depois, ela responde-me. Está bem, em casa e meia hora antes da explosão tinha estado a voltar de metro. Eu já sabia que na vida havia grandes sortes e azares diferenciados por simples segundos, mas nunca tinha sentido um sentimento tão forte de sorte inundado no sangue de tanto azar, tristeza e revolta. 

(A fotografia é da Place de la Bourse em Bruxelas, onde as pessoas se reuniram e fizeram um memorial espontâneo de homenagem às vítimas dos atentados. Foi tirada por mim na tarde do dia 20 de Abril. Achei que pertencia mais a este post.)

11.10.16

Foi assim que aconteceu...


... ou pelo menos começou. Não podia deixar passar mais tempo. O coração não ia ficar mais calmo com toda a mentalização que fazia no meu psicológico. Não ia e eu, no fundo, sabia. Decidi que teria que ser ali e agora. Eram três da tarde na minha faculdade e a minha mão não conseguia controlar o rato do computador. Um batimento irritante entre o rato e a mesa era marcado pelo meu ritmo cardíaco. eDreams. Lisboa. Há mais algum aeroporto em Lisboa? Não, Patrícia, concentra-te, só há um e não vais tornar isto demorado. Ok.. E agora, Bruxelas. Três aeroportos, fantástico. Joanaaaa, para onde vou mesmo? "Zaventem, mulher, já te disse tantas vezes." A memória é algo tramado nestas alturas. 

Proceed, proceed. Ok, agora tenho aqui milhares de opções. Humm, então vamos limitar isto entre a Ryanair, a EasyJet, a TAP e no mês de Abril. Uns dias depois dos meus anos para começar em alta (literalmente) o meu vigésimo segundo aniversário. Vejo as opções e percebo que as low cost ficam ao mesmo preço da TAP por querer levar mala de porão. Parece que vou poder ir de pernas bem esticadinhas, ou pelo menos era o que todos me diziam sobre viajar na TAP e mais ainda se fosse nos lugares da saída de emergência. Acho que nunca perceberam que a única saída - que uma pessoa que viaja sozinha pela primeira vez - iria querer ter dali era a normal. Pronto, na primeira e em todas as outras vezes. Mas pelo menos ajudarem-me a esquecer que existia a possibilidade de uma emergência era no mínimo, bastante simpático. Se bem que caso fosse para poder ir ao pé da janela nunca recusaria. Será que isto já dá para escolher aqui? Hummm, não.

Dez minutos e uma conta pessoal criada depois, faço o meu último click para marcar a viagem. 
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