Ainda me lembro do dia em que me enviaram a lista de
pessoas com quem ia viver na residência, com a respectiva foto. Era Julho e
apesar dos nove quartos, reparei que éramos só três ou quatro portuguesas.
Tentei encontrar o teu facebook dois meses antes de começar a viver contigo.
Percorri todas as tuas fotos (no meu melhor momento stalker de 2012) e vi que
vinhas da tua ilha preferida, a Madeira. Para ser sincera, nesse momento só
pensei o quanto sofri de dores de ouvidos da pressão do sobe e desce de quando
lá fui há uns largos anos.
Não criei expectativas. Aliás, escolhi ir para uma
residência com bastantes quartos mesmo para ter oportunidade de conhecer várias
pessoas e abandonar a sala quando me apetecesse. Gosto de convívio, mas não há
nada como ter o meu tempo comigo mesma. O segundo por vezes é tão bom ou melhor
que o primeiro. Talvez tenha sido por isso que tenha começado a gostar de ti.
Eras bem-disposta, passavas imenso tempo dentro do teu quarto, tinhas um robe
com mais bonecos do que o meu, não gostavas das mesmas pessoas lá em casa do
que eu, metias atum em quase todas as tuas refeições, eras fixe.
Cinco
meses depois, lembro-me de abrir a porta pouco depois da meia-noite e quatro ou
cinco amigos teus entrarem com bolo. Não os conhecia, ainda pouco te conhecia a
ti e sem saber, foi o teu primeiro aniversário que passei contigo. Esse
primeiro ano passou a correr e de todas as decisões que já tomei na vida, ter
convencido o meu pai a deixar-me ficar mais um ano na residência foi uma das
melhores de todas.
Voltámos
a Setembro e eu voltei a receber uma lista de pessoas que estariam na
residência nesse semestre. Ver novamente a tua foto no quarto nº 9 dessa lista
fez-me sentir em casa. Acho que deve ter sido o primeiro momento em que comecei
a olhar para ti como a minha família de Lisboa. Depois deste momento, não sei
como tudo aconteceu. Não quero tentar procurar no chat do facebook quando
passámos de “estás em casa? A máquina de secar já não trabalha outra vez,
enviamos e-mail?” para “diz-me que estás em casa, nem sabes o que aconteceu, oh
meu deus vais-te rir tanto”.
Já tentei, aquilo acusa mais de 36000 mensagens
até chegar ao início e sinceramente, acho que só a nostalgia daquilo que
consegui memorizar já me enche sem medidas. Lembro-me que nesse ano te dei os
parabéns sabendo realmente que fazias anos, quando te encontrei à porta de
casa. E foi nessa altura que tudo realmente começou. Ficávamos tardes, noites e
madrugadas na sala de estudo. Comecei a confiar em ti pequenas partes da minha
vida e senti que também tu te sentias mais próxima.
Gosto de pensar o quão
natural e espontâneo foi este processo até chegarmos ao dia hoje. Mas gosto
ainda mais de pensar que tudo começou com aquilo que sabemos fazer melhor: rir
que nem umas perdidas. Podia ser qualquer coisa, uma música, um vídeo, uma foto
da y ou uma foto do x, conseguíamos fazer de tudo uma piada.
Foi isso que me
fez gostar tanto de ti, aquele extremo bom humor a dar toques no sarcasmo que
não me deixava parar de rir até me começarem a doer as bochechas. É difícil
encontrar pessoas assim, que sejam tão nós, que pensem tal como nós, que
percebam da mesma forma que nós. Mas a verdade é que existem, e eu não podia
estar mais agradecida por ter-te a ti ao meu lado. Amenizas a minha dor,
amplias a minha felicidade, constróis-me a mim como pessoa e presenteaste todos
os momentos em que eu de ti precisei. E não há de forma alguma algo que eu
pudesse pedir mais.
Tu completas tudo aquilo que eu sempre ouvi falar mas que
todos os dias ponderei ser ilusório. E é por isso que és a minha MAIOR amiga.
Não gosto de dizer que há umas melhores que outras, daí ser um pouco contra à
palavra melhor amiga. Sempre fui a favor de termos vários amigos e cada um ser aquilo
que mais sabe de melhor. Mas tu és a maior. Aquela que existe em mim mesmo
quando não está, aquela que não passo um dia sem falar, aquela a quem tudo
conto, aquela que todos os dias me faz falta e aquela que jamais substituirei.
E
hoje estou triste e ao mesmo tempo tão feliz. Triste porque te vais embora e
durante cinco meses é como se não tivesse a minha família cá. Todos os momentos
em que eu vivi em Lisboa também tu vivias. Se não era na mesma residência,
nunca foi mais que duas ruas de distância. Ir ter contigo aconchegava e dava-me
forças quando precisava. Acho que não houve nenhuma vez em que fosse ter
contigo a chorar que não saísse com um largo sorriso no rosto. É essa
felicidade que não tem explicação que sempre senti contigo. Não tínhamos horas
para o fazer, se bem que de manhã concordávamos ambas em dormir sem
despertador. Tanto podia ser a meio da tarde como sairmos de casa uma da outra
às duas da manhã (mesmo que o combinado fosse “passar aí só 20 minutos antes de
jantar”). E tudo isso era fruto do à vontade que tínhamos e que pouco partilho
com mais alguém. Ai Joana... e pensar que não te vou ter cá para dividir a
minha cama enrolada no meu robe cor-de-rosa e falarmos sem assunto durante
horas que se estendem sem fim.
Mas ao mesmo tempo sinto-me tão feliz por ti.
Sozinha e decidida, a lançar-se para outro país cheia de sonhos e positivismo.
Um dia quero ser como tu, mas até lá... faço-te uma visita. E coração, eu não
meto os pés num avião há oito anos e nunca viajei sozinha, se isto não for amor
não sei o que será. Ou talvez até saiba, é um amor MAIOR.
Está muito bem escrito...
ResponderEliminarParabéns!
Tão bonito :') a amizade é linda, os seres humanos são maravilhosos*
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